19 de jan de 2006

A arte urbana nossa de cada dia: ArtBreak


por Rafael Adorjan

Até que ponto as vivências do nosso cotidiano podem ser interpretadas como uma experiência artística?

Pode ser que você desconsidere por completo essa possibilidade. Mas, caso ao menos exista alguma crença neste propósito, o seu dia-a-dia já pode começar diferente se você se dispor a estabelecer um olhar mais afiado sobre as coisas, prestando um pouco mais de atenção naquilo que está lá sempre, ou no que você “já conhece”. Mas só de andar pelas ruas, nos deparamos com situações no mínimo inusitadas, e que nos sentimos na obrigação de contar para os outros só para afirmar a sua veracidade. Uma situação que não é assim tão incomum.

Mas mesmo aquilo que achamos que é o de sempre, pode nos despertar um interesse maior que gera algum sentido ao percebermos que as ruas podem ser nosso grande espaço de criação. Contextualizando para um significado mais abrangente, podemos considerar banalidades como feitos extraordinários. O espaço urbano pode funcionar como uma grande tela, onde podemos interferir na malha urbana com nossos pequenos atos. Ou seja, podemos deixar de ser coadjuvantes do cotidiano para atuar como agentes de nosso meio, com consciência.

Uma das ferramentas mais contundentes que se alia a esta lógica é o trabalho de criação em vídeo. São amplas e inúmeras as estratégias de se acrescentar um olhar próprio e enriquecedor de sentido sobre um cenário que não se repete nunca, em constante mutação diante de nossos olhos. Cabe ao artista, observar o cotidiano existente de forma a sobrepor uma outra visão, repleta de novos significados perante a realidade, seja diluindo, esticando, arrastando ou cortando em pedaços. Ou seja, intervindo para a instauração de um espaço-tempo próprio.

É basicamente com esse intuito que foi produzido o ArtBreak: “um corrente projeto de arte pública que traz arte e talento para a atenção pública através de sua transmissão em vias não convencionais. (...) O foco do ArtBreak está em novas mídias, criatividade e inovação, conectividade, comunicação, interatividade, dinâmicas urbanas e uma comunidade que partilha experiências culturais” , segundo os organizadores.

Uma de suas características mais interessantes é o engajamento na democratização do acesso às artes, com o auxílio das novas tecnologias. O projeto teve sua primeira edição pública em vários telões distribuídos em cada uma das nove diferentes estações subterrâneas de trem, selecionadas dentre a enorme rede ferroviária do chamado CBD (Central Business District) de Sydney, Austrália - Town Hall, Wynyard, St James, Martin Place, Central, Kings Cross, Edgecliff, Bondi Junction e North Sydney - por onde circula diariamente um elevado número de pessoas na cidade e onde o projeto foi concebido. Ainda, essas estações têm uma baixa incidência de luz natural e esse foi o principal motivo da escolha dessas unidades, pois permitiam melhor visibilidade das projeções. Justamente por utilizar o espaço público, nada mais coerente que o público que compõe este espaço possa também acompanhar o resultado destas criações.

Mesmo situado na Austrália, trata-se pela sua essência de um projeto transnacional, com a intenção de estabelecer um diálogo entre as culturas de diferentes países, também na expectativa de ser amplamente conhecido e difundido entre um número crescente de pessoas, contando com a colaboração de interessados de diferentes lugares do planeta. Até o momento, o projeto conta com a colaboração de Austrália, França, Reino Unido, Dinamarca, Sérvia e Montenegro e Brasil.

Quem representa o Brasil é a artista Ana Maria Monteira de Cavalho, que realizou o vídeo “Janelas”, em parceria com o australiano Graham Burchett, e comenta a sua participação e experiência com o projeto: “O mais incrível na produção desse vídeo foi ver coisa toda acontecer naturalmente com um jeito parecido de ‘olhar’ as nossas (muitas) janelas do cotidiano; trocando esses vídeos e imagens, percebemos que tínhamos um conjunto bastante coerente, com muita sintonia e sentido. Graham escolheu o ritmo, as cores e fez tudo ficar muito harmônico e bonito. Assim as imagens cariocas se misturam com pessoas andando em Sydney com som feito para o vídeo pelo músico Halfbear, de Belgrado”.

O vídeo tem sido a principal ferramenta, mas os colaboradores também realizam trabalhos com diversos outros segmentos que se aliam à proposta do projeto, como música e artes gráficas. Ana Maria complementa: “seria muito interessante se pudéssemos receber vídeos do Brasil para a seleção e exibição em Melbourne e, futuramente, no Rio de Janeiro”.

Mesmo produzido no espírito do “faça-você-mesmo”, o ArtBreak tem o apoio de Federation Square, uma importante instituição australiana que fomenta o desenvolvimento das artes e conta com a sofisticada estrutura de um complexo que abriga eventos de diferentes segmentos durante todo o ano. E é lá onde está acontecendo agora a segunda edição do ArtBreak.

O apoio e o suporte acabam sendo o fato diferencial para a existência de um projeto desse porte por aqui. É totalmente necessário contar com o apoio do poder público, coisa que por lá parece ser muito mais razoável. E mesmo com a falta de recursos, em termos de produção, não estamos nada atrás.

No site do ArtBreak estão disponíveis trechos de alguns trabalhos em vídeo selecionados, e que já foram exibidos. No momento, estão abertas inscrições até 10 de dezembro, para uma nova exibição na Federation Square de Melbourne em 2006. “Dedicar-se com arte em nosso dia-a-dia” é o lema do projeto, que prova que o cotidiano da vida urbana pode realmente ser inspirador, afirmando-se como uma fonte inesgotável para a criação artística.

(Fonte: Na Telona - http://www.natelona.com/coluna_c.asp?id=178)